O fatídico 12/05

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Eu duvido que qualquer pessoa que preze pela democracia tenha conseguido dormir bem na noite passada.

Coloquei o despertador para as seis horas, porque até as sete gostaria de estar no Palácio do Planalto.

O plano foi bem sucedido, e, apesar de todas as pessoas que me encaravam no caminho, com esse ódio fascista criado pela mídia contra o PT, chegamos bem com nossa bandeira.

Cravos de defunto amarelos estavam sendo plantados no jardim do Palácio do Planalto (coincidência?), enquanto as flores vermelhas se encontram intactas, e minha mãe decidiu pedir uma flor para os jardineiros.

No começo ele nos deu duas flores com raiz e tudo as quais claramente recusamos, afinal coitadas das plantas, iam morrer e ainda sujar a presidenta de terra. Não foi uma boa ideia.

Depois de explicarmos ele nos deu duas flores, e aí percebemos que eram cravos de defunto. Ficamos sem saber o que fazer com os cravos, então colocamos os dois na grade que nos separava do Palácio.

Mais tarde chegaram as companheiras de luta que vieram a Brasília especialmente para participar da quarta (e provavelmente última) Conferência Nacional de Políticas para Mulheres.

Logo depois fomos todas expulsas do local pelos seguranças, mas que nos deram a esperança de que iríamos poder voltar ali para ver a Dilma.

Uma fila foi sendo formada em direção à suposta entrada, e conheci um pessoal da juventude petista de Brasília, do Rio. Bem interessante como todos nós nos unimos sem precisar de nada ou ninguém. Nós nos reconhecemos como juventude petista sem precisar de uma palavra, mesmo eu sendo a única a usar uma camiseta da juventude petista.

Por mais que estivéssemos felizes em estar ali e nos encontrar, era simplesmente impossível não sentir que estávamos perdendo algo. Os erros da governanta foram muitos, porém nada que justifique o impeachment.

O Brasil inteiro compartilha o sentimento de injustiça da presidenta, e sinceramente acredito que vamos fazer algo a respeito.

A diversidade presente em todas as manifestações a favor da democracia sempre fez com que sentisse que estava do lado certo, e dessa vez não foi diferente.

Pessoas de todo Brasil vieram prestar apoio a presidente e compartilhar de sua dor, conheci gente de Fortaleza até Rio Grande do Sul.

Nós estávamos bem na frente, e o Lula, para nossa surpresa, foi o primeiro a aparecer, chorando conosco e nos dando a mão. Acredito que ambas partes precisavam disso.

Quando Dilma apareceu não se mostrava abatida, apesar de consideravelmente magra e seu olhar refletir a dor de uma traição.

Havia visto a defesa feita pelo Cardozo, que do meu ponto de vista foi incrível, mas não esperava que ele estivesse tão abalado quanto o Lula, como de fato foi. Ele foi a pessoa que mais conversou com a população presente.  Que eu tenha percebido, ele foi e voltou duas vezes na grade.  Fiquei muito emocionada com o carinho dele por todos nós.

O discurso da Dilma foi emocionante, e por isso mesmo interrompido por nós diversas vezes para demonstrar nosso apoio.

Na Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, me emocionei com o coro feminino a gritar palavras contra Temer, a favor de Dilma, da democracia. Imaginem um grande teatro repleto de mulheres com os punhos levantados, gritando pelos seus direitos.

Esse foi um dia triste e belo, que poderia muito bem ser resumido pela imagem do cravo de defunto encostado na grade-um percalço no caminho-, mas que recebia a luz do sol. A esperança de um novo dia.

Laís Vitória Cunha de Aguiar.

Aos que querem tirania

educação saúde cadeia

 

Há no tempo um silêncio

De quem viveu

Em época que o berço era bala

Que o colo era tiro

Em que a vida era um não

O boi era a lei

A bíblia era um meio

A bala era um fim

Há no riso de hoje uma presente preocupação

A democracia é jovem

E jovens são os filhos do berço, colo

Em que a vida é um sim

Não eterno não

Há quem diga aos filhos do não

Que a melhor solução

É a volta da bíblia, boi e bala

Aos jovens filhos do sim:

Vocês são a prova

De que na democracia

Se faz a evolução

E de que a maior revolução

É não aceitar o não

Da bala, bíblia e boi.

Laís Vitória Cunha de Aguiar.

Jovens na Adaptação Climática

adaptação climática

Jovens trabalhando com meio-ambiente não é novidade. Acredito, porém, que é sempre bom ter esperança, para isso vou apresentá-los a alguns jovens que se dedicam a uma área não tão comentada dentro das ciências climáticas, que é a Adaptação Climática.

Eu mesma, apesar de já ter lido muito sobre IDCs e outros termos técnicos, nunca havia me aprofundado na questão da Adaptação Climática.

O que significa esse termo?

Adaptação se refere aos ajustes nos sistemas ecológicos, sociais, ou até em resposta as atuais ou esperadas mudanças (climatic stimuli), assim como aos seus efeitos e impactos. Se refere a mudanças em processos, práticas e estruturas para moderar danos em potencial ou se beneficiar de oportunidades associadas com mudança climática.’- UNFCC 

Quais exemplos?

Adaptar os prédios para caso de terremoto, como no Japão, construir barragens para conter o avanço do mar, como na Holanda (Oosterscheldekering), plantar espécies de árvores menos vulneráveis a tempestades e ao fogo, fazer corredores ecológicos, como temos no Brasil (corredor Capivara-Confusões e Caatinga), e, até usar a água de forma inteligente.

Quais jovens?

A luta contra a mudança climática e em favor de um mundo melhor ocorre diariamente nos mais diversos locais, como no Kenya, Zimbabwe e Indonésia. O que nos traz esperança é a percepção de tantos jovens, dos mais diversos lugares, neste trabalho.

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Kenya

Yabunga Julius (24), no Kenya, é ‘apaixonado por conservação ambiental e ama servir a humanidade através do voluntariado.’ Trabalha em Recursos Humanos, e, como voluntário, com Ecossistema Baseado na Agricultura, com Segurança Alimentar.

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Zimbabwe

Elizabeth Gulugulu, em Zimbabwe, é recém-formada em Ciências Ambientais. Por já ter sido voluntária na área ambiental conseguiu trabalhar com Mudança Climática, mais especificamente com Adaptação Climática. O que mais ama é ver as medidas de adaptação  implementadas e observar seus efeitos nas comunidades.

Muhammad Rafi Al-Hariri Nasution (20), da Indonésia, estudante de Meteorologia, é o criador do projeto DCME, que tem como principal motivação reduzir a vulnerabilidade das favelas. Basicamente trabalha com prevenção de desastres. A motivação de Muhammed é o próprio objetivo de seu projeto: redução de riscos nas favelas.

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Indonésia

Fikri Rozi (21), também da Indonésia,  estudante de Meteorologia, participa do mesmo projeto que Muhammad Rafi no papel de organizador dos eventos. Sua motivação para participar do projeto é ‘aumentar a chance de viver daquelas pessoas através da educação.’

Maria Paschalia Judith Justiari (21) participa do projeto DCME, é responsável pela divulgação e comunicação, também é estudante de Meteorologia. Sua inspiração para participar do projeto vem de longe: Desde dos seu 13 anos se sentia compelida a auxiliar pessoas em situação de risco.  Ela acredita que as perdas por desastres podem ser prevenidas se houver o conhecimento necessário.

Kevin Agustinus Lazarus (21), também participante do projeto DCME, se responsabiliza pela parte de design. Ele diz que sua inspiração provém do fato de que, quando educadas, as pessoas realmente tem chance de sobreviver.

Anna Maria Kusumaningayu (21) quis simplesmente ajudar seus melhores amigos a realizar seu projeto. É responsável pela tesouraria.

Dora Anna Hutajulu (21) faz faculdade de Engenharia Geomatemática, um curso que não temos no Brasil. É responsável por planejar as rotas de evacuação. Sua inspiração é, na verdade, uma necessidade, já que segundo as regras da faculdade (Tri-Dharma Perguruan Tinggi-3 Rules of College) precisam fazer o que chamam de Desenvolvimento Comunitário. Viu no DCME uma chance de fazer seu trabalho.

As respostas as minhas perguntas foram muito similares, mesmo sendo de locais diferentes, por isso resolvi compilá-las em um só artigo.

Tanto Indonésia quanto Kenya e Zimbawe são países vulneráveis as mudanças climáticas, afinal, a situação financeira deles não é boa, a sociedade tem dificuldade em entender as mudanças (adaptações) e os motivos delas, sem contar que a consciência relativa às mudanças climáticas é baixa.

Uma forma que esses jovens trabalham com isso é fazer um mapa de evacuação, ensiná-los a usar e educá-los para os desastres. Eles também tentam criar políticas públicas que podem incentivar países a investir na agricultura (de forma saudável, como a orgânica), conservação do solo e mudança climática (o mais óbvio).

Entender modelos de desenvolvimento agrários em seus países – e compreender quem serão os possíveis agentes de mudanças – é um outro jeito pelo qual estão agindo. Compreender quem pode ser a mudança facilita no momento de realmente colocar a mão na massa.

Sem contar que é mais fácil levar para frente uma agenda de desenvolvimento sustentável sabendo quem são seus agentes e como mobilizá-los. É uma tarefa muito importante, mas infelizmente faltam pessoas no Brasil tentando fazê-la.

Como negócios também são afetados pela mudança climática, uma forma de inclui-los na mudança e tornar mais negócios sustentáveis é identificar os que já existem (como Yabunga Julius faz com a agricultura) e assim criar oportunidades para toda cadeia de valor.

Apesar de toda essa força de vontade as situações não são fáceis, principalmente por falta de apoio governamental e por falta de recursos que simplesmente não existem em países como Zimbabwe, por isso parte do acordo da COP 21 que demanda aos países desenvolvidos um fundo de 100 bilhões de dólares para os subdesenvolvidos é tão importante.

O problema é que nem eles, os agentes locais, sabem como vão receber o dinheiro ou como este será redistribuído,  nem se a juventude será beneficiada. Uma das esperanças deles no Fórum Humanitário Mundial é que esses ‘buracos’ no acordo do ano passado sejam resolvidos.

Outro desafio é conscientizar as pessoas: como ensinar para quem não quer aprender? É um problema sério, pois muita gente não acha que os desastres vão ocorrer até que eles aconteçam. Várias pessoas morrem simplesmente por não terem sido precavidas.

Isso sem contar com alterar o paradigma de que não precisamos mais investir na agricultura da forma com que EBA (The European Banking Authority) impulsiona os países mais pobres a fazer. A copiar um modelo que já não é mais útil para um mundo sustentável. Para haver uma boa adaptação às mudanças climáticas é preciso, sim, ter dinheiro, mas mais do que isso, precisamos diminuir a insustentabilidade de nossos atos, o que inclui deixar de investir em fontes de energia como o petróleo.

O projeto do pessoal da Indonésia pode ser pequeno, mas com certeza já está fazendo muita diferença na vida da população de Pulosari, Bandung.  Os objetivos do trabalho são: educar 50 pessoas em área de risco sobre desastres e como evitá-los,  criar mapas de evacuação, conseguir dez voluntários para organizar o programa, fazer simulações de quando desastres ocorrem.

Na Indonésia ocorrem enchentes severas, secas, fogos nas florestas, etc. Se a população souber o que se deve fazer e o que não se deve fazer nessas situações, muitas vidas podem ser poupadas.

Quando questionei a respeito do que o Fórum Humanitário Mundial (que ocorrerá esse ano) pode contribuir para a Adaptação Climática, eles disseram que pode trazer consciência a próxima geração de líderes, e que, com isso, eles talvez façam algo de bom para a própria sociedade agora, aprendendo com suas experiências e obstáculos que enfrentarão: ‘Eu acredito que questões humanitárias como refugiados, mudança climática, adaptação, mitigação, tolerância, podem ser discutidas e melhoradas se nos comprometermos a trazer a mudança para todos os cantos do mundo. Sim, com certeza somos capazes!’ – Muhammad Rafi Al-Hariri Nasution.

A música vai além do sentido das palavras, e as palavras as vezes perecem no túmulo dos sentidos. – Foi isso que pensei, ontem, ao ouvir Yamandú Costa tocar durante horas e não me cansei. Normalmente sou uma pessoa que se distraí com facilidade, ainda mais quando a música é somente instrumental.

Mas não, qual será o segredo de quem entoa a música que emociona e prende com apenas um violão solitário? É estranho pensar na força de um acorde que fala a nossa alma, ainda mais sem entender o motivo…. A força da música está, talvez, na luz que emana de suas frases sem palavras, de seus amores sem som.

Eu componho, e nunca gostei de nenhuma de minhas músicas pelo simples fato delas não terem letra, e agora vejo que o fato das composições não terem letra pode ser uma vantagem, afinal deixa o ouvinte fazer sua própria letra e encontrar seus próprios significados. Abaixo uma das minhas favoritas de Yamandú Costa, Bem Vindo, que ele fez para o filho recém-nascido:

Projetos sustentáveis em cidades brasileiras.

‘O ciclista de domingo é o motorista no dia de semana’.-Disse Eduardo Jorge, elaborador do projeto que instaurou uma grande ciclo faixa na cidade de São Paulo.
Além de diminuir a poluição com o decréscimo da emissão dos gases que provocam o efeito estufa, a ciclo faixa ainda auxilia na educação no trânsito, pois quem anda de bicicleta com a família nos finais de semana será o motorista durante a semana, e assim aprenderá a respeitar os ciclistas, diminuindo a quantidade de acidentes.
Projetos como esse podem ser observados em diversas cidades brasileiras, são 266 prefeituras trabalhando com indicadores de sustentabilidade e muitas outras como Santa Vitória do Palmar, que já transformaram conceitos em ações.
Faz pouco tempo que esse pequena cidade não possuía nem energia elétrica em todas as regiões, e hoje chega até a exportar. Como?
A resposta não poderia ser mais sustentável: foi implantado o Complexo Eólico Geribatu, um investimento de 1,5 bilhão efetuado pela prefeitura da cidade com apenas 40 mil habitantes. O complexo soma 258 megawatts de potência elétrica com 129 geradores a 78 metros empregando 600 pessoas!
A cidade, graças ao complexo eólico, nunca cresceu tanto, afirmam os moradores, e isso graças a sustentabilidade de ações.
Em São João da Boa Vista está sendo criado o Programa São João Mais Verde, que apesar de muito novo já tem seus frutos.
O objetivo do programa é fazer com que a cidade cresça com sustentabilidade, e para isso deverão ser plantadas 50.000 árvores, segundo a engenheira ambiental da cidade, Evelyn Zanette, além da ciclofaixa em uma avenida muito frequentada da cidade, conhecida por Mantiqueira.
Outras ações ainda deverão ser tomadas, porém tudo está sendo planejado cautelosamente com auxílio da sociedade civil.
Mudando de região, em Pernambuco foi criado o Observatório de Recife em 2008, e seu objetivo é alcançar metas sustentáveis por meio de indicadores econômicos e sociais. São informações de órgãos públicos como o IBGE que servem para pesquisas.
‘Nem sempre conseguimos mudar, mas conseguimos que a gestão reflita sobre os problemas da cidade’.-Declara Kilsa Rocha, representante do Núcleo Executivo do Observatório.
Pulando para outra região, encontramos em Londrina outro exemplo de projeto sustentável que nos deixa com esperança em um Brasil melhor: o projeto de reciclagem na cidade não tem como objetivo somente o descarte correto do lixo, como também uma economia na compra de alimentos.
O projeto ‘Cesta Verde’ , que começou em 2011, é excelente, pois por meio do programa a população troca lixo reciclável por produtos orgânicos. Inteligente, não? A troca ocorre toda sexta-feira em bairros anteriormente determinados pela Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento e pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização, que se dirigem a esses locais para efetuar a troca, que é realizada da seguinte forma: a cada 2 quilos de lixo reciclável é entregue 1 quilo de alimento sem agrotóxico.
‘Faz parte da cultura de Londrina a coleta seletiva. Mulheres catadoras voltaram a estudar e os trabalhadores da cooperativa que tinham jornada de 14 horas hoje fazem 6 horas.’- Celebra o prefeito Barbosa Neto.
O projeto deu tão certo que Londrina foi convidada até a apresentar seu modelo de reciclagem em congressos na França.
Como é possível concluir, diversas cidades brasileiras com as mais diferentes realidades estão tentando se melhorar e tornar suas cidades sustentáveis.
Com certeza ainda há muito a fazer em todos esses lugares, porém é assim que começa uma grande mudança: de pequenas atitudes que um dia se tornarão grandes graças a seus resultados.
O que sua cidade faz em favor da sustentabilidade? Se não faz nada, comece você a pressionar a prefeitura e dar ideias, uma hora sua voz será ouvida e a mudança realizada. Com certeza existem pessoas que também almejam melhorar seu município. Junte-se a elas e ‘seja a mudança que você quer ver no mundo’, como diria Gandhi.
Laís Vitória Cunha de Aguiar.

Um livro e as questões de gênero por diversas gerações.

Autora: Laís Vitória Cunha de Aguiar
Ontem estava mexendo nos livros de cozinha da minha avó e acabei encontrando um livro antigo, que na realidade pertenceu a minha bisavó, falecida no ano passado.
Quando comecei a lê-lo, pensei que seria apenas um livro de receitas antigas… Estava tão enganada! Era um livro sobre como a mulher devia se portar, de como ela devia tratar o marido, como a mulher devia viver apenas para a casa e a família. Um absurdo! Quanto mais eu lia, mais indignada ficava, afinal, sou uma garota do século XXI!
E o pior é que via naquelas palavras a minha bisavó, a maneira de ela agir, de se comportar estava toda naquele livro. Também pude perceber que algumas atitudes da minha avó são parecidas com as indicadas para mulheres no texto, apesar de serem muito menos machistas e tradicionais em comparação com a minha bisa, mas ainda assim com resquícios da leitura.
O livro chama-se ‘Novíssima Enciclopédia Mundial da Culinária’, para meu espanto publicado “há pouco tempo”, era a sétima edição em 1974, da Editora Age, dentro de uma coleção chamada “Boas Maneiras”! Fico refletindo quantas gerações de mulheres foram influenciadas por esse livro. E esse é apenas o quinto livro de toda uma coleção!
Primeiramente perguntei a minha avó se o livro era dela, ao que ela me respondeu que era da minha bisa por parte do meu avô, que deu para ela. Por que será?
Em 1974 pensei que a situação fosse diferente, que as mulheres fossem independentes como nos dias de hoje. Ô engano! A minha avó me contou que, na época, existia uma escola em São Paulo, capital, para as mulheres tornarem-se boas esposas. Chamava-se ‘Lareira’. Era onde elas “esperavam” pelos futuros maridos! Nem consigo acreditar que um dia a mulher só almejava o casamento!
Essa escola era apenas para as garotas ricas. Existia na época, segundo a minha avó, uma diferença entre as estudantes da “Lareira” e das escolas estaduais, isso acontecia graças aos ideais de vida. Nos anos sessenta algumas meninas – como minha avó – que queriam uma igualdade de gênero discutiam com outras que ainda reafirmavam a postura da “Lareira”, pensando que a palavra ‘trabalho’ vinha separada da palavra ‘família.’
Vou dividir meus atuais motivos de indignação com este trecho da página 124: ‘ O arranjo da casa é uma obrigação desde a muito dedicada à mulher, e para que uma casa deixe de ser uma simples casa, e torne-se um verdadeiro lar, é preciso que a mulher dedique-se a isto com carinho.’
Por que ‘o arranjo da casa é uma obrigação desde a muito dedicada à mulher’ se a casa é de todos? Portanto todos devem cuidar, não somente a mulher, mas, pelo que entendi nesse livro, a função da mulher era cuidar da casa, das crianças e agradar ao marido. Na contra capa do livro tem até um desenho de uma mulher com avental, feliz, servindo ao marido e filho. Ela não tinha personalidade, desejos individuais (como estudar etc), ela tinha apenas funções.
Um lar é formado de carinho, de amor e não de ‘arranjos’, a formação de um lar cabe a todos que habitam o mesmo espaço, não apenas a uma pessoa. Não depende de uma pessoa se a outra está de mau humor, ou se algo não saiu como haviam ‘almejado’.
Outro trecho, página 83:
‘Não basta que habite uma casa constituída de acôrdo (sic) com os precedes da técnica. É necessário que o imóvel se encontre sempre na mais perfeita ordem e na mais rigorosa limpeza.
O governo da casa compete à mulher, e a tarefa mais difícil mormente quando se trata de família numerosa, quando tem muitos filhos. Em uma casa desorganizada não pode haver tranqüilidade. Raramente aí se encontram os objetos quando deles se precisam.
A falta de capricho e desordem ocasionam invariavelmente em desarmonia, contrariedades e aborrecimentos. Como o exterior de uma pessoa é quase sempre o reflexo e jamais poderão manter a autoridade em força moral de dona de casa, perante aos vendedores e subalternos. ’
É possível observar um ‘pré-conceito’ contra as empregadas e vendedores tratados como inferiores, ‘subalternos’, como se houvesse distinção entre as donas de casa e as empregadas porque as primeiras são donas de algo, portanto consideradas superiores.
Outro ‘pré-conceito’ que vejo existente naquela época (e que perdura até os nossos dias) é o da aparência: ‘como o exterior de uma pessoa é quase sempre o reflexo (…)’, esse livro não é apenas um livro de culinária, mas também um documento histórico que retrata muito bem os valores da época, e podemos notar que infelizmente alguns perduram até hoje.
Em uma casa com muitas crianças seria loucura tentar manter tudo organizado, ‘todos devem arrumar e não desarrumar’, diz um trecho. Não sei como as mulheres daquela época não enlouqueceram!
Nesse livro é como se a mulher só fosse capaz de realizar isso, e como se ainda fosse muito para ela. Como já disse anteriormente, discordo que ‘o governo da casa compete à mulher’, pois até onde sei vivemos em uma democracia e todos devem fazer sua parte. Inclusive em casa.
É incrível que, quando leio tudo isso, não acredito que foi na nossa sociedade, no nosso Brasil, nas nossas famílias. Era outra cultura, outro mundo que se transformou. Hoje as mulheres ocupam cargos de chefia (temos uma mulher na presidência), ganham bem e têm família ao mesmo tempo em que trabalham.
Mais um parágrafo – absurdo – para compartilhar com vocês, está na página 74:
“É uma tarefa delicada, difícil, trabalhosa e incessante, que requer sacrifícios de todos os instantes e uma incomparável dedicação. Pode-se afirmar sem exageros que as mãos femininas constroem um silencioso e obscuro trabalho de formiga, um grandioso monumento da civilização.(…) Companheira e amiga do homem, esposa e mãe, é a mulher o anjo tutelar da família. Mesmo quando ainda vivendo no lar paterno, já a ação da mulher como filha e como irmã, pode ser frequentemente e de grande importância para a SOCIEDADE DOMÉSTICA.’ (Grifo meu)
Ela não era considerada importante para a sociedade, apenas para a “sociedade doméstica”. A mulher tentava deixar tudo da maneira perfeita, mas o que ela ganhava com isso? Será que havia realização pessoal? Era um trabalho ‘obscuro’ deixar o ambiente em que viviam limpo? Percebi (mais do que nunca) como a sociedade desvalorizava o trabalho da mulher.
Ainda bem que mudou, passou-se pouco tempo, conheci a minha bisavó, vivi com ela por muitos anos, ela me ensinou trabalhos manuais, mas nunca pensei que seria para me tornar a dona de casa perfeita, a esposa perfeita, e sim para me tornar uma pessoa melhor, com mais conhecimentos. A sociedade ainda é machista, mas muito menos que antes… Percebo agora como essa foi uma luta de gerações, apesar delas (bisavó, avó, mãe) não perceberem que, a cada geração, houve uma mudança.
Primeiramente a minha bisavó trabalhou em uma fábrica. Quando casou, parou de trabalhar, mas já foi um progresso em relação a sua mãe, que teve 12 filhos e, na décima segunda filha, faleceu.
A minha avó foi para faculdade de história, foi professora durante 25 anos, lutou contra a Ditadura, se separou, continuou trabalhando e cuidando dos filhos, minha mãe e tio.
Minha mãe foi Cara Pintada, participou do Movimento Estudantil já na democracia, também fez faculdade, é professora de educação física, fez mestrado, e cuida de mim sozinha, sem precisar ter se casado com meu pai para isso.
Voltando um pouco no tempo podemos observar as lutas das mulheres por direitos dentro de todas as lutas de toda humanidade. Em 1948 foi concluída a Declaração dos Direitos do Homem (hoje conhecida como Declaração dos Direitos Humanos), que diz, já no segundo parágrafo da terceira página, que esta veio ‘para reafirmar a fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e valor do ser humano, nos direitos iguais para homens e mulheres(..)’.
Na Inglaterra as mulheres conseguiram o direito ao voto no começo do século XX, quando houve a segunda Revolução Industrial; aqui no Brasil a partir do Código Eleitoral Brasileiro de 1932. Nos anos 60 começou a Revolução Feminista.
Depois de todas essas lutas, tanto pelos direitos das mulheres quanto em prol da humanidade, não pude entender como um livro como aquele pôde ser lido nos anos 70! Até mesmo na escrita da Declaração foi uma mulher que presidiu a sua conclusão, Eleanor Roosevelt! Como ainda havia leitoras depois de todas essas conquistas?
O fato do Brasil, que tem um histórico de forte machismo, eleger pela primeira vez Dilma Rousseff, uma mulher presidente, é um marco na história democrática do nosso país e na luta feminina por igualdade social.
Apesar dessa vitória, ainda temos muitas lutas para ganhar. Uma delas é o futebol feminino que não é valorizado. As jogadoras não ganham nem a metade do que os jogadores ganham, e a melhor jogadora, Marta, não irá mais jogar nas Olimpíadas pela falta de incentivo nos jogos desse ano…Valorizamos tanto o futebol masculino, por que não valorizar a força das mulheres em campo?
Temos também outras questões, por exemplo: que as Delegacias da Mulher funcionem 24 horas e que haja um Instituto Médico Legal especializado para estas mesmas mulheres atendidas. Educação para que jovens aprendam a respeitar a diferença de gênero e também todas as outras diferenças, como a racial, a opção sexual, as diferenças políticas e tantas outras.
Assim não podemos permitir que as mudanças cessem e devemos continuar lutando, tanto pelos direitos humanos quanto pela igualdade de gênero, pois essas são lutas que se complementam.

A vida me surpreende

Dêem uma chance a paz.
A vida me surpreende a cada instante, toda vez conheço algo ou alguém, toda vez que leio um livro ou revista que me mostra outros pontos de vista e assim abre um novo leque de sabedoria.
Queria que todas as pessoas fossem eternamente surpreendidas, pois assim todos aprenderiam mais e saberiam dar valor a vida, não só a dela, mas a de todos que habitam esse planeta.
Talvez assim parassem de poluir os rios, mares, de jogar lixo na calçada, de achar que tudo bem alguém ser assassinado, contanto que não seja um ente querido, assim aprenderiam que a arte de aprender está no fato de que é possível aprender com o mundo ao redor e com pessoas desconhecidas, que aprender não é memorizar, e sim compreender.
Se você é uma pessoa eternamente surpreendida, isso significa que sabe se surpreender com toda forma de vida que habita esse planeta, por mais insignificante que esta pareça, e se for assim o futuro do planeta e da espécie será importante para você, não só seu futuro, pois compreenderá a importância de toda vida, presente no momento ou no futuro, isto é saber assimilar pelo menos uma parte do que o mundo tem a nos oferecer.
Tornar o dia-a-dia é supreendente é uma missão que todos nós deveríamos abraçar…Como? Observando que pequenas mudanças na nossa vida diária podem realmente mudar o mundo (diminuir a quantidade de luzes acesas, por exemplo) e como o simples fato de estarmos vivos já é surpreendente.

Laís Vitória Cunha de Aguiar.

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